Por Maria Paula Maciel
A nova Pesquisa Origem e Destino (OD), conduzida pelo Metrô de São Paulo, revelou mudanças significativas na mobilidade da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). O levantamento, que é o maior e mais completo estudo sobre mobilidade urbana da América Latina, analisou os padrões de deslocamento de 79 mil pessoas entre agosto de 2023 e maio de 2024. Os dados apontam um aumento expressivo das viagens privadas por aplicativos e uma queda na participação do transporte coletivo motorizado, colocando a cidade na contramão das tendências globais de mobilidade urbana sustentável.
Segundo Eliana Mello, pesquisadora líder do eixo de mobilidade do FGV Cidades, essa mudança acende dois alertas: primeiro, a substituição do transporte coletivo pelo individual, impactando a eficiência do sistema; e segundo as políticas de mobilidade urbana não têm sido suficientes para manter a participação do transporte público coletivo ou mesmo reverter a tendência de queda da demanda.
Um dado histórico reforça a necessidade de atenção ao problema. Em 2002, o transporte coletivo foi superado pelo individual no número de viagens motorizadas. A reversão de cenário similar aconteceu em 2007, graças ao impulso de políticas públicas como a expansão dos corredores de ônibus e a implementação do Bilhete Único, que garantiu maior integração entre os modais. Esse avanço, no entanto, está sendo perdido ao longo dos anos, com a queda progressiva do do transporte coletivo como alternativa de deslocamento.
Há expectativa de uma nova recuperação em 2027, caso a Linha Laranja do metrô seja inaugurada conectando a Zona Norte e o centro de São Paulo. Essa linha atenderá uma região densamente povoada e carente de transporte público de massa, podendo estimular um aumento no uso dos modais coletivos. Entretanto, a pesquisadora ressalta que apenas a expansão da malha metroviária não será suficiente. “É preciso investir na integração intermodal, inclusive com o transporte por aplicativo, e na infraestrutura e melhoria da oferta dos serviços de ônibus, além de repensar a prioridade viária do transporte coletivo”, destaca.
Diante desse cenário, a população deve se manter atenta para cobrar políticas públicas que garantam o direito à cidade e um transporte mais acessível, eficiente e sustentável. O FGV Cidades, por meio de suas pesquisas, seguirá acompanhando essa evolução e trazendo dados fundamentais para o debate sobre mobilidade urbana em São Paulo.